CULTURA DA CEBOLA(RESUMO)

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Aspectos Gerais - A cebola (Allium cepa) apesar de ser a terceira hortaliça em importância econômica, vindo depois da batata e do tomate, é uma cultura de altíssimo risco. Em 1985, por exemplo, houve uma quebra da safra nordestina que provocou um aumento de preços espantoso: a saca de 20 kg passou de 3.000 para 150.000 cruzeiros, em julho, baixando para 100 .000 cruzeiros em outubro, o que foi muito lucrativo para quem se arriscou ao seu cultivo, com colheita nessa época. Aliás, essa é um característica das culturas de cebola e alho: num ano o preço está altíssimo, e muita gente planta; então, os preços caem acentuadamente, pouca gente planta, sobem de novo e assim por diante. Outra característica da cebola é a manipulação do mercado por intermediários ( atravessadores). Quem lucra menos é sempre o plantador. Em anos recentes, os lucros obtidos com a cebola foram assim distribuídos: em 1984, o produtor ficou com 21% dos lucros, o atacadista com 30% e o varejista com 49% ; em 1981, o produtor ficou com 20% , o atacadista com 26% e varejista com 54% ; em 1982, couberam 23% ao produtor, 29% ao atacadista e 48% ao varejista; e, em 1983, o produtor ficou com 22%, o atacadista com 27% e o varejista com 51% . Isso em termos médios, porque, segundo a revista Agroanalysis, da Fundação Getúlio Vargas, essas taxas variam também durante o ano, havendo momentos de extremos na distribuição dos lucros, com em outubro de 1980, quando o produtor ficou com apenas 13% dos lucros gerados pela cebola, indo 32% para o atacadista e 55% para o varejista. Nesses anos, a maior porcentagem dos lucros que o produtor conseguiu foi em julho de 1982, quando ficou com 29%, indo 32% para o atacadista e 39% para o varejista.

Maiores produtores - Os maiores produtores atuais são, por ordem, China, Índia, Estados Unidos, União Soviética, Japão, Espanha, Turquia, Brasil, Egito e Itália . Em 1980, a produção mundial foi de 19,41 milhões de toneladas em 1,583 milhões de hectares plantados, dando rendimento médio de 12.262 kg/ha. A produção brasileira era de 705.000 t em 68.000 ha, dando rendimento de 10.426 kg/ha . O rendimento médio no Japão era de 39.714 kg/ha; nos Estados Unidos, 34.570 kg/ha; e na Espanha, 28.281 kg/ha. Os maiores produtores brasileiros são os Estados de São Paulo (37,73% do total), Rio Grande do Sul (24,88%), Santa Catarina (16,77%), Pernambuco (9,27%), Bahia (6,79%) e Paraná (3,11%). A maior produtividade é conseguida em São Paulo, onde alcança 12.919 kg/ha. As sementes são produzidas quase que exclusivamente no Rio Grande do Sul.

Solo - O melhor é textura média, rico em matéria orgânica, profundo e não seja argiloso, o que dificulta o crescimento dos bulbos. O pH deve ser em torno de 6 e , em caso de acidez, recomenda-se a correção com calcário dolomítico. Ela é uma das plantas mais sensíveis à acidez.

Clima - A cebola é exigente em relação ao cumprimento do dia (fotoperíodo) para formação dos bulbos: cada variedade exige um número mínimo de horas de luz por dia (ver no item variedades). As temperaturas mais favoráveis variam de 15 a 25°C nos quatros primeiros meses após a semeadura. As chuvas na época da colheita são muito prejudiciais a essa cultura.

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Variedades - A indicação de variedades de cebola deve levar em conta as exigências de luz e as condições das regiões. O ciclo vegetativo das variedades também varia, e essa variação se relaciona com as exigências de luz. As variedade de dia curto, que produzem com 10 a 12 horas de luz por dia, tem o ciclo precoce, de 130 a 160 dias da semeadura a colheita; as de dia médio, que precisam de 11 a 13 horas diárias de luz, tem o ciclo de precocidade médio, de 161 a 200 dias; e as de dia longo precisam de mais de 13 horas de luz por dia e tem o ciclo tardio, superior a 200 dias. No vale do São Francisco, por exemplo, onde os dias tem pouco mais de 12 hora no verão, recomendam-se variedades como a pêra IPA-1 e a pêra IPA-2, criadas especialmente para as condições do submédio São Francisco, em Pernambuco. Outras variedades apropriadas para essa região são a amarela cha-das -canárias, a excel ou bermuda-86, agranex-33, a red-creole e a baia-do-cedo e texas-grano-502. No norte de Minas, costuma-se plantar a texas-grano, a baia-periforme, a red-creole e a roxa-do-barreiro. Em região de clima mais ameno, de São Paulo para o sul, planta-se a texas-grano-502, a granex, a baia-precoce e a baia-periforme, a pêra-ouro AG-55 e AG-59. Mais ao sul, recomendam-se a rio-grande, pêra-baia-periforme, jubileu e norte-14. Outras variedades recomendadas são a: crioula, de ciclo médio, a pêra-norte.

Produção de mudas - A sementeira deve ser preparada em local de fácil acesso, em terreno bem drenado e arejado, que não tenha sido cultivado com cebola recentemente, de preferencia perto de água limpa, para irrigação Se a textura do sol não for boa, recomenda-se a incorporação de matéria orgânica ou terra vegetal (terra de matos). Fazer também as devidas correções de solo, após análise da terra, e juntar 5 kg/m² esterco. A área necessária para a produção de mudas para 1 ha tem sido de 500 a 600 m²; mas pode ser reduzida para 300 a 400 m², seguindo-se estas recomendações. Os canteiros devem ter de 60 a 80 cm de largura, e a semeadura é feita em linhas distanciadas 10 cm entre si. Usam-se 1,5 a 2 kg de sementes (para 500 a 600 m² , 2,5 a 3 kg). Depois da semeadura, o solo deve ser coberto com palha seca, que precisa ser retirada logo que as plantas comecem a nascer. Tanto a falta como excesso de umidade prejudicam a germinação e o desenvolvimento; por isso o solo deve ser bem drenado, e a cultura irrigada com freqüência, mas sem que se encharquem os canteiros. O combate a invasoras é importante, porque elas concorrem com as mudas. O terreno deve ser mantido limpo, com erradiação das invasoras feita a mão ou com a enxadinha apropriada. Não se devem usar herbicidas. A época do plantio depende das variedades e das condições climáticas da região. Pode-se plantar em algumas regiões - selecionando-se as variedades adequadas - em qualquer época do ano, mas em todos os Estados produtores há uma concentração maior em alguns meses. Em Pernambuco, a principal época de plantio vai de janeiro a maio, concentrando-se mais em fevereiro e março; na Bahia, planta-se mais também em fevereiro e março e um pouco menos em janeiro; em São Paulo, 60% do plantio se faz em fevereiro e março, mas há outro, de grande concentração, em junho e julho; em Santa Catarina, o período em que se planta mais cebola vai de julho a setembro, principalmente no mês de agosto, e no Rio Grande do Sul, 75% do plantio são feitos em agosto.

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Transplantio - A época de transplante depende da variedade plantada e do desenvolvimento da muda. Nos plantios de julho em diante, os transplante devem ser feitos quando as mudas têm de 4 a 6 mm de diâmetro e, nos feitos antes de julho, quando elas têm de 3 a 4 mm. As mudas muito pequenas não devem ser utilizadas, porque a porcentagem de pega caí muito depois do transplante. Onde se faz a capina utilizando-se tração animal, o espaçamento deve ser de 60 cm entre as ruas e de 15 cm entre as plantas. Há agricultores que chegam a usar um espaçamento de 12 x 7 cm para melhor aproveitamento do terreno, mas o mais recomendado é de 25 a 30 cm entre as ruas e de 10 cm entre as plantas. Para se fazer o transplante, abre-se um sulco estreito, com uma enxada pequena ou uma enxada comum inclinada, ou então um sulco largo, da largura da enxada comum; colocam-se as mudas, que são cobertas até a mesma altura em que estavam enterrados na sementeira, usando-se a própria terra tirada na abertura do sulco. Em alguns lugares do solo arenoso as mudas são transplantadas com os dedos, sem aberturas de sulcos.

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Polinização - A polinização da cebola, com suas flores masculinas e femininas isoladas, se faz principalmente por insetos. O mais eficiente é a abelha APIS MEL-LIFERA. Em experiências feitas num campo de cebola com 2,3 colmeias por hectares houve visitação de cerca de 55% de Apis mellifera, mais abelhas nativas, moscas, besouros e vespas. O resultado, em termos médio, de sementes por ramo florífero: 177,8 na ausência dos insetos e 1.660 com a participação deles.

Tratos culturais - A cebola sofre muito com a concorrência de invasoras. O controle deve ser feito com enxadas ou a mão. Normalmente é preciso fazer 3 ou 4 capinas. A irrigação, se necessária, deve ser menor e mais freqüente, de maneira que não haja falta nem excesso de umidade. Perto do final ciclo, a irrigação deve ser suspensa para que se processem a maturação e a cura de forma adequada.

Pragas e doenças - A principal praga da cebola é o tripes, ou piolho, que prefere tempo seco e quente. Em algumas regiões a lagarta-do-milho também ataca a cebola, principalmente na falta de plantações de milho. As doenças são muita e, caso ocorram, podem causar prejuízo de 20 a 70%. Em sementeiras, a mela é um dos principais fatores para o baixo aproveitamento das mudas. Geralmente ela é favorecida pelo alto grau de umidade e pela falta de luz e sol dos sombrios e com cerração. Por isso é que se recomenda a instalação da sementeira em local ensolarado e bem arejado, e que se façam irrigações freqüentes e pouco intensas. Na fase pós-transplante aparece principalmente a mancha-púrpura e a queimadas-pontas ou môfo-cinzento. Depois disso, as doenças mais prejudiciais são míldio, ou lã preta, provocada pelo fungo peronospora desteructor, e a antracnose, também conhecida por mal-das-sete-voltas. Outra doenças que podem causar podridão nos bulbos são bico branco e a podridão-do-pescoço. O controle de todas essas doenças, e também das pragas, deve ser orientado por técnicos.

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Maturação e colheita - Nas variedades precoces e de ciclo médio, a maturação se inicia pelo estalo, que o tombamento da parte aérea (a rama). As folhas mais velhas começam a secar e as túnicas externas dos bulbos adquirem a cor característica de sua variedade. Nas variedades tardias não o estalo, e a maturação, se observa apenas pelas folhas e pelos bulbos. Em Pernambuco, a colheita ocorre nos meses de junho a setembro; na Bahia, de junho a agosto; em São Paulo, de maio a agosto e depois em novembro; em Santa catarina e no Rio Grande do Sul quase só em dezembro. A colheita é feita manualmente, arrancando-se a planta (em solo mais duro, afrouxa-se o terreno em volta das plantas), sem que a parte aérea se destaque do bulbo, porque isso prejudicaria a cura. A cura consiste em deixar as plantas em linha no próprio campo, depois que elas são colhidas, para perderem o excesso de umidade. A cura ao sol é muito importante e deve durar de 2 a 3 dias, com as plantas colocadas de maneira que a rama de uma fila cubra os bulbos da fila anterior, para que eles não sejam queimados pelo sol. A cura é completada à sombra, feita em galpão ou depósito, que pode durar de 20 a 60 dias, dependendo das condições do clima na época da maturação e da colheita. A cura bem feita deixa a cebola com a rama amarelada, flexível e sem sinais de enegrecimento. Os bulbos ficam com a coloração mais intensa, com as túnicas externas brilhantes e soltando-se com facilidade.

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Conservação - Para uma boa conservação, os depósitos devem ser amplos, secos e bem arejados, com piso mais alto do que o terreno ao seu redor e com capacidade para uma boa estocagem, mesmo quando houver excesso de safra. As aberturas e a cobertura não devem de maneira alguma deixar entrar umidade nos períodos de chuva. A melhor forma de armazenamento é a que se faz em varais, de varas disposta paralelamente ao chão, uma sobre as outras, com distância de 50 a 60 cm uma da outra (como um jirau em forma de escala), presas a suportes verticais de madeira. A cebola é acondicionada em molhos no varais, para que uma pessoa possa passar entre eles, a fim de verificar se existem bulbos podres, que devem ser eliminados. Os varais devem ser construídos no sentido do comprimento do galpão, para que haja bom arejamento. Em boas condições de produção e armazenamento, a cebola pode ser conservada até a entressafra, para alcançar melhor preço, como fazem alguns produtores. O beneficiamento, que consiste no corte da rama, é feito na época da comercialização. Também devem ser retiradas as túnicas (cascas) que estiverem parcialmente soltas ou sujas de terra. A embalagem é feita em sacos de 20 a 25 kg.

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Classificação - Fora algumas características das variedades, como a coloração da casca, que pode ser amarela, branca, roxa ou vermelha, uma classificação correta leva em conta vários fatores. Um deles é o diâmetro do bulbo ( sentido transversal). A classificação comercial considera de primeira as com bulbo de mais de 5,5 cm de diâmetro, de segunda as que tiverem entre 4 e 5,5 cm e de terceira as com 2,5 cm de diâmetro são vendidas para fábricas de conservas. O sistema de classificação recomendado pelo Ministério da Agricultura considera como cebola classe 4 (graúda) a com diâmetro de mais de 8 cm; classe 3 (média) a com a 6 a 8 cm; classe 2 (pequena) a com 4 a 6 cm; e miúda a com 2 a 4 cm. Além do tamanho, leva-se em conta a forma da cebola, que pode ser ovalada, periforme (em forma de pêra), globular (redonda) ou achatada. Os principais defeitos que desvalorizam a cebola são os bulbos brotados, com talo grosso (talo além do normal e geralmente oco), descascados, deteriorados(apodrecidos), deformados, esverdeados (as variedades brancas, quando expostas ao sol na cura, ficam esverdeadas e perdem o valor; devem ir diretamente para a cura à sombra), com mancha-preta (provocada pelo ataque de fungos) ou com danos mecânicos (esmagamentos, cortes ou ferimentos, provocados, provocados no transporte ou por qualquer meio).

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Composição por 100 g - 39 calorias, 1,4 mg de proteínas, 30 mg de cálcio, 40 mg de fósforo, 1 mg de ferro, 2 mmg de vitamina A, 0,04 mg de vitamina B1, 0,03 mg de vitamina B2 e 10 mg de vitamina C.

origem da cebola

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A cebola (Allium cepa L. ) é uma das plantas cultivadas de mais ampla difusão no mundo, sendo a segunda hortaliça em importância econômica, com valor da produção estimado em cerca de US$ 6 bilhões anuais. A produção mundial apresentou aumento de cerca de 25% na última década, o que coloca a cebola como uma das três hortaliças mais importantes ao lado do tomate e da batata. Somado a isto, o valor social da cultura de cebola é inestimável, sendo consumida por quase todos os povos do planeta, independente da origem étnica e cultural, constituindo-se em um importante elemento de ocupação de mão-de-obra familiar.

A cebola é uma planta extremamente versátil em termos alimentares e culinários, sendo utilizada para consumo in natura na forma de saladas, de temperos ou processada. A cebola é uma das espécies de hortaliças mais antigas, sendo mencionada na Bíblia e no Corão islâmico. O registro mais antigo sobre o cultivo da cebola data de cerca de 3.200 anos A.C., sendo a região da antiga Pérsia (atual Irã) um dos primeiros centros de domesticação. Devido as suas características de boa conservação pós-colheita (permitindo transporte dos bulbos a longas distâncias), a cebola foi historicamente uma das hortaliças com maior trânsito global, estando envolvida em transações comerciais entre países de todos os continentes. A cebola figura entre as primeiras plantas cultivadas introduzidas na América a partir da Europa, levada inicialmente por Cristóvão Colombo para o Caribe.

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Taxonomia do gênero Allium

A classificação da cebola dentro da espécie Allium cepa L. está perfeitamente estabelecida desde o primeiro tratamento taxonômico adotado por Carl Van Lineus no seu livro Species Plantarum (1753). No entanto, o posicionamento correto do gênero Allium tem sido motivo de controvérsia, sendo algumas vezes classificado dentro da família Liliaceae ou da Amaryllidaceae (classe Monocotyledones, ordem Asparagales), conforme a ênfase em determinadas características morfológicas, fisiológicas e bioquímicas. Mais recentemente, a combinação de dados morfológicos e moleculares tem reforçado a idéia de que as cerca de 750 espécies do gênero Allium pertencem, de fato, a uma família monofilética – Alliaceae – que é distinta, mas estreitamente relacionada com a família Amaryllidaceae. Este gênero vegetal inclui, além da cebola, várias outras espécies de hortaliças de importância econômica tais como o alho (A. sativum L.), a cebolinha (A. fistulosum L.), o alho porró [A. ampeloprasum L. var. porrum (L.) J. Gay], o "rakkyo" (A. chinense G. Don.), "chive" (A. schoenoprasum L.), bem como diversas espécies ornamentais.

Centro de origem da cebola

Espécies pertencentes ao gênero Allium são encontradas em uma ampla gama de altitudes e latitudes que incluem desde o círculo polar Ártico até o continente europeu, Ásia, América do Norte e África. No entanto, em contraste com a maioria das plantas cultivadas, o centro exato de origem da espécie A. cepa ainda permanece obscuro. O fato é que esta espécie pode ser classificada como uma típica “cultigen”, isto é, não existem relatos da ocorrência de populações de A. cepa em condições naturais ou fora da esfera da domesticação humana. O geneticista russo Vavilov sugeriu, como provável centro de origem das cebolas, as áreas desérticas englobando regiões do atual Paquistão e o Irã. De fato, diversas características morfológicas e fisiológicas da cebola dão suporte a hipótese que esta hortaliça tenha originado nas regiões áridas da Ásia Central, de solos pobres e rasos e submetidos a constante estresse hídrico. Entre as adaptações a estas condições extremas encontram-se a própria formação de bulbos que são bainhas foliares modificadas, recobertas por películas membranosas (catáfilos) que servem como órgãos de reserva, sendo estes bulbos capazes de rebrotar após períodos prolongados de estresse hídrico severo. Outras características associadas com adaptação a regiões áridas são: (1) a presença de níveis variáveis de cerosidade foliar, que reduz a transpiração; (2) o elevado potencial de água requerido para induzir o fechamento dos estômatos; (3) a baixa densidade radicular, que permite melhor exploração de solos rasos e o melhor equilíbrio hídrico com a parte aérea; (4) a notável capacidade de tolerar transplantio, mesmo quando praticamente todo o sistema radicular é removido; (5) a presença de folhas de formato cilíndrico, que é o mais efetivo para dissipação do calor da folha para o ar; (6) a presença de folhas estreitas e com orientação quase vertical, que evita a incidência direta dos raios solares em uma grande superfície foliar, especialmente nas horas mais quentes do dia; e (7) níveis de transpiração e fotossíntese reduzidos em condições de altos potenciais de solo-água, que resulta em um limitado crescimento, permitindo a planta sobreviver por períodos mais longos de seca. Muitas destas características apresentam conseqüências práticas em diversos aspectos fitotécnicos da cultura da cebola, incluindo estratégias de nutrição e adubação, manejo de plantas daninhas e manejo de irrigação (ver seções correspondentes).

Características Nutricionais e Funcionais da Cebola



O papel da nutrição hoje vai além da ênfase sobre a importância de uma dieta balanceada. Ela deve almejar a otimização das funções fisiológicas, garantir o aumento da saúde e bem-estar e a redução do risco de doenças. Neste novo contexto, os alimentos funcionais tem papel fundamental. Eles podem ser definidos como alimentos que, consumidos numa dieta padrão, fornecem benefícios além da nutrição básica. Alguns dos seus componentes, que podem ser nutrientes ou não, auxiliam na prevenção e recuperação de doenças e nas funções relativas ao mecanismo de defesa e controle do ritmo corporal.

Há muito tempo acredita-se que o consumo de cebola auxilia na prevenção de certas doenças, o que a caracteriza como um alimento funcional. De modo geral, todas as partes da planta da cebola podem ser consumidas na dieta humana. Embora apresentem reconhecidas propriedades funcionais, as cebolas são consumidas, principalmente, pela sua capacidade de adicionar sabor a outros alimentos.

Os açúcares e os ácidos orgânicos contribuem substancialmente para o sabor da cebola. No entanto, o sabor, o odor e a pungência característicos desta hortaliça são formados quando os tecidos da planta são rompidos ou cortados, resultando na decomposição enzimática de substâncias que contém enxofre na sua estrutura, conjuntamente denominadas de sulfóxidos de cisteína. A recente caracterização da enzima responsável pelo efeito lacrimatório da cebola em seres humanos abriu a possibilidade de estabelecer processos mais eficientes de desenvolvimento e seleção de cultivares isentas desta característica, as chamadas cebolas doces/suaves (“cebolas sem choro”).

Características nutricionais

A composição de cebola é influenciada pelas condições de cultivo (sistema de produção, tipo de solo, clima) e por fatores genéticos. Bulbos de cebola para consumo fresco são pouco calóricos (em torno de 40-50 calorias) e contém de 89 a 95% de água, além de mono e dissacarídeos (açúcares totais em torno de 6%), proteínas (1,6%), gordura (0,3%) e sais minerais (0,65%). Possuem também alguns compostos fenólicos, bem como ácidos málico, cítrico, succínico, fumárico, quínico, biotínicos, nicotínicos, fólicos, pantotênicos e ascórbico. A cebola possui diferentes minerais, como cálcio, ferro, fósforo, magnésio potássio, sódio e selênio. Destes, a contribuição da cebola em uma dieta padrão é significativa para o selênio, que é um mineral-traço essencial, ou seja, o organismo necessita dele em quantidades mínimas, tornando-se tóxico em altas doses. Deficiências de selênio geram catarata, distrofia muscular, depressão, necrose do fígado, infertilidade, doenças cardíacas e câncer. Este mineral oferece proteção contra doenças crônicas associadas ao envelhecimento, como aterosclerose (doenças das artérias coronarianas, cerebrovascular e vascular periférica), câncer, artrite, cirrose e efisema.

Embora não seja considerada uma boa fonte nutritiva devido a seus baixos teores de proteínas e açúcares, a cebola é rica em vitaminas do complexo B, principalmente B1 e B2, e vitamina C. Estes nutrientes são importantes para o bom funcionamento do organismo. As principais funções e as conseqüências do baixo consumo destas vitaminas estão na Tabela 1.

Características funcionais

O consumo da cebola tem aumentado, especialmente em países mais desenvolvidos, devido à sua associação com características funcionais. Pesquisas recentes têm procurado comprovar os benefícios da cebola para a saúde, além de identificar os compostos responsáveis por eles. A cebola é particularmente rica em dois grupos de compostos com comprovado beneficio à saúde humana: flavonóides e sulfóxidos de cisteína (compostos organosulfurados). Dois sub-grupos de compostos do tipo flavonóide predominam em cebolas: as antocianinas (que conferem a coloração avermelhada ou roxa aos bulbos) e as quercetinas e seus derivados (que conferem coloração amarelada ou cor de pinhão aos bulbos). As antocianinas, quercetinas e seus derivados são de grande interesse pelas suas propriedades anticarcinogênicas.

Muitos dos benefícios à saúde proporcionados pela cebola e espécies relacionadas são atribuídos aos compostos organosulfurados, os quais chegam a compor de 1-5% do peso seco total de bulbos maduros. A ação da enzima alinase sobre os sulfóxidos de cisteína forma substâncias voláteis como tiosulfinatos, tiosulfonatos e mono-, di- e tri-sulfideos. A gama de propriedades funcionais atribuídas aos sulfóxidos de cisteína e seus derivados incluem: propriedades anticarcinogênicas, atividade antiplaquetária, atividade inibidora de tromboses, ação antiasmática e efeitos antibióticos. Na Tabela 2 estão algumas propriedades da cebola comprovadas cientificamente.

Embora remonte às origens da civilização, a relação entre alimentação e saúde nunca foi tão estreita quanto nos dias de hoje. Uma receita de alimentação ideal deve ser equilibrada em proteínas, açúcares, gorduras, fibras, minerais, vitaminas e água, em doses balanceadas. Dessa forma, nenhum alimento isolado deve ser ingerido em detrimento de outros para prevenir uma doença específica, uma vez que diferentes alimentos fornecem diferentes substâncias vitais para a saúde.

Tabela 1. Principais funções das vitaminas presentes na cebola.

Vitamina

Efeitos sobre o organismo

Deficiência

B1

(Tiamina)

Melhor crescimento; maior resistência a infecções; funções normais do sistema nervoso; aumento do apetite; melhor digestão e absorção dos alimentos

Beribéri (confusão mental, perda muscular)

B2

(Riboflavina)

Saúde da pele; bom funcionamento do trato digestivo; formação de anticorpos e hemáceas

Lesões na mucosa bucal; vermelhidão da língua

B3

(Niacina)

Equilíbrio do sistema nervoso e do metabolismo; redução dos índices de colesterol; normalidade da respiração e circulação; produção de hormônios sexuais

Fraqueza muscular; falta de apetite e erupções cutâneas; pelagra (dermatite, demência e diarréia)

B5

(Ácido pantotênico)

Regulação dos índices de açúcar no sangue; melhor utilização das proteínas e vitaminas; formação de anticorpos

Distúrbios intestinais, renais e nervosos

B6

(Piridoxina)

Assimilação das proteínas; transmissão de impulsos nervosos; formação de anticorpos

Distúrbios nervosos (irritabilidade, convulsões)

B8

(Biotina)

Auxilio no crescimento; formação e utilização de gordura; produção de anticorpos

Dermatite; palidez; náusea; queda de cabelo; falta de apetite

B9

(Ácido fólico)

Manutenção da integridade do sangue e do sistema nervoso; formação do feto

Baixo crescimento; anemia e outras doenças sangüíneas; distúrbios no trato gastrointestinal

C

(Ácido ascórbico)

Absorção de ferro; síntese de colágeno; cicatrização; resistência a infecções; antioxidante

Escorbuto (baixa cicatrização, pele seca, queda de dentes e problemas de gengivas)

Tabela 2. Propriedades cientificamente comprovadas da cebola.

Efeito

Ação

Antibacteriano

Inibe bactérias causadoras de cáries e de distúrbios gástricos

Antifúngico

Contra fungos causadores de micose

Cardiovascular

Reduz o teor de gordura do sangue e o risco de trombose e de aterosclerose; estimula o coração

Antiasmática

Ameniza os sintomas da asma

Hipoglicêmico

Auxilia no controle da diabetes

Anticancerígeno

Reduz o risco de desenvolver câncer de esôfago, estômago e mama

Antiinflamatório

Auxilia no combate a inflamações

Outros

Antioxidante; desintoxicante de metais pesados

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O fotoperíodo (número de horas de luz diária) e a temperatura são os dois fatores climáticos que controlam a adaptação da cebola e limitam a recomendação de uma mesma cultivar para uma faixa ampla de latitudes. A escolha de cultivares não tão adequadas para as condições de cultivo (local e época) resulta em produtividade baixa e/ou qualidade ruim dos bulbos. A temperatura, além de influenciar a bulbificação, afeta diretamente o florescimento.

Fotoperíodo

Luz é provavelmente o fator ambiental mais importante envolvido no crescimento e desenvolvimento de plantas. A cebola é fisiologicamente uma espécie de dias longos para bulbificação que, de modo geral, não bulbifica em dias com duração inferior a 10 horas de luz. Sob fotoperíodos muito curtos, as plantas não mostram sinais de bulbificação mesmo após períodos longos de crescimento. Satisfeitas as exigências em fotoperíodo, tem início a formação do bulbo, independentemente do tamanho da planta.

Em função do número de horas de luz diária exigido para que as plantas formem bulbos comercializáveis, as cultivares de cebola são classificadas em quatro grupos: de dias curtos (DC); de dias intermediários (DI); de dias longos (DL); e de dias muito longos (DML). As DC iniciam a bulbificação em dias com pelo menos 12 horas de luz; as DI exigem dias com 13 ou mais horas de luz; as DL exigem mais de 14 horas de luz diária; e as DML exigem dias com duração superior a 15 horas.

No Brasil, em função dos fotoperíodos que ocorrem ao longo do ano, as cultivares possíveis de serem plantadas em condições normais de temperatura são as dos tipos DC e DI. As cultivares DC podem ser cultivadas em quaisquer regiões, enquanto as DI são mais adaptadas ao cultivo na região Sul do Brasil, desde que plantadas na época certa. Cultivares DL não bulbificam bem, mesmo nas condições de dias intermediários do extremo Sul do Brasil, devido ao fotoperíodo insuficiente para bulbificação. Sob o aspecto de melhoramento, a ocorrência de fotoperíodo curto a intermediário no Brasil limita o uso de populações DL em programas de hibridação visando o desenvolvimento de cultivares DC.

Por serem geneticamente heterogêneas, cultivares de polinização aberta (não híbridas) em condições de dias mais curtos que o mínimo exigido, apresentam bulbificação variável, ou seja, uma proporção de plantas com bulbos normais, uma com bulbos mal formados e outra de plantas que não bulbificaram. Por outro lado, cultivares híbridas, por serem geneticamente mais homogêneas, tendem a apresentar comportamento mais uniforme.

O efeito do fotoperíodo na bulbificação de cebola não é do mesmo tipo que ocorre com a floração na maioria das espécies de dias longos, em que apenas algumas horas de exposição ao fotoperíodo exigido pela espécie é suficiente para induzir a floração de forma irreversível. No caso da bulbificação, é necessário que as folhas sejam expostas a fotoperíodos indutivos para iniciar a fase de bulbificação e sejam mantidas nessa condição continuamente até a senescência de todas as folhas verdes para completa formação do bulbo.

O fotoperíodo crítico requerido por uma dada cultivar para a bulbificação é normalmente mais curto e a taxa de bulbificação é maior quando a cultura é estabelecida de bulbinhos ou de soqueira do que de sementes. Aparentemente, algum estímulo à bulbificação permanece nos bulbos colhidos e promove a bulbificação precoce no replantio.

Temperatura

Estímulo à bulbificação

Ainda que a duração do dia seja o fator principal para a indução, formação e maturação do bulbo, seus efeitos são modificados pela temperatura. A bulbificação apenas se inicia quando a combinação dos fatores determinantes da bulbificação (fotoperíodo e temperatura) de cada cultivar é atingida.

O comprimento do dia necessário para iniciar a bulbificação diminui quando a temperatura aumenta, mas nenhuma bulbificação ocorre, mesmo em temperaturas altas, se o comprimento do dia for insuficiente. Temperaturas altas diurnas são promotoras da bulbificação mais eficientes do que temperaturas altas noturnas. Temperaturas extremamente altas (> 35ºC) na fase inicial de crescimento das plantas podem provocar a bulbificação precoce, e é um dos inconvenientes do plantio no verão no Brasil. Temperaturas baixas podem alongar o fotoperíodo crítico e podem prejudicar a formação dos bulbos. Exposição a breves períodos de frio extremo (<>

Em condições indutivas, ou seja, uma vez satisfeitas as exigências fotoperiódicas para a bulbificação, os bulbos crescem e amadurecem mais rapidamente sob temperaturas altas. Sob temperaturas baixas o processo é atrasado. Ressalta-se que não há efeito da temperatura alta sobre a taxa de crescimento do bulbo se o fotoperíodo não for indutivo. É importante temperaturas elevadas para completa formação dos bulbos, ideal entre 15 e 25ºC.

Quando culturas são estabelecidas de bulbinhos, a formação e maturação do bulbo são atrasadas e haverá requerimento de fotoperíodo maior para bulbificação quando bulbinhos são armazenados sob temperaturas altas (28 a 30ºC) por vários meses antes do plantio. Algum estímulo à bulbificação presente no bulbinho pode ser destruído pela exposição prolongada a temperaturas altas. O período para completa maturação dos bulbos é ampliado em condições climáticas mais frias após plantio.

Estímulo ao florescimento

A temperatura é o fator meteorológico mais importante na passagem das plantas de cebola da condição vegetativa para reprodutiva. Para induzir o florescimento, é necessário expor as plantas ou seus bulbos a um período prolongado de frio, cujo binômio duração do frio e temperatura críticos exigidos variam com cada cultivar e tamanho da planta.

O florescimento em uma cultura destinada a produção de bulbos (florescimento prematuro ou "bolting") é prejudicial e ocorre quando as plantas são expostas a períodos prolongados de frio, após estas terem atingido determinada idade fisiológica, geralmente de três a cinco folhas. Exposição a temperaturas menores que 9°C por duas a três semanas, de modo geral, causa "bolting". Plantas maiores requerem menor tempo de exposição a baixas temperaturas para a iniciação floral. Logo, práticas culturais que favoreçam a formação de plantas grandes quando existe a possibilidade de temperaturas frias, tais como plantio precoce e fertilização em excesso no início do ciclo, acentuam o problema.

Índices altos de florescimento prematuro podem resultar reduções significativas de produtividade em cultivos comerciais de cebola. Na região Sul do Brasil, o plantio de cebola precoce não deve ser realizado muito cedo (em março a abril), pois pode haver elevada incidência de florescimento prematuro em função da exposição de plantas a temperaturas baixas. Semeios realizados de maio em diante, de modo geral, propiciam menor taxa de florescimento prematuro. Cultivares desenvolvidas para a região Nordeste do Brasil, como as da série IPA, são menos exigentes em graus baixos de temperatura e tempo de exposição ao frio para florescer do que as cultivares desenvolvidas para as regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul.

Precipitação e umidade

Os fatores meteorológicos precipitação e umidade, embora não exerçam efeito sobre a iniciação da bulbificação e florescimento, exercem efeito sobre a rapidez de desenvolvimento dos bulbos e estrutura floral, além de afetar o estado fitossanitário e a qualidade dos bulbos na colheita.

Chuvas em excesso nas últimas etapas da maturação, quando as folhas estão começando a murchar, favorecem o apodrecimento dos bulbos ainda no campo. Além disso, chuvas em excesso em qualquer etapa do desenvolvimento da cebola prejudicam a produção, pois as raízes da cebola morrem quando inundadas. Para boa qualidade dos bulbos é necessário contar com tempo seco durante a colheita e a cura da cebola. Bulbos que são colhidos em tempo úmido normalmente apodrecem imediatamente após colhidos.

A umidade relativa elevada favorece a incidência de doenças foliares. Quando severas, tais enfermidades aumentam demasiadamente o custo de produção, podendo inclusive comprometer totalmente a produção.

PREPARO DO SOLO,ADUBAÇÃO E NUTRIÇÃO PARA CEBOLA



O manejo criterioso da adubação consiste em otimizar a produtividade, satisfazendo as necessidades da cultura pela adoção de técnicas que propiciem maior eficiência no uso dos adubos, da água, da mão de obra e dos demais insumos, minimizando as perdas de nutrientes por lixiviação, erosão e volatilização. A aplicação racional de fertilizantes exige o conhecimento da disponibilidade de nutrientes no solo, das exigências nutricionais da cultura e da avaliação do estado nutricional das plantas.

A disponibilidade de nutrientes é avaliada por meio da análise química do solo, e o estado nutricional das plantas por meio da diagnose foliar (análise de tecidos vegetais) e diagnose visual (observação de sintomas de carência ou excesso).

Independente do sistema de cultivo, seja convencional, plantio direto ou orgânico, é fundamental o preparo adequado do solo, a correção da acidez e a aplicação de fertilizantes em quantidades adequadas, de acordo com as exigências da cultura e considerando a disponibilidade de nutrientes no solo.

As recomendações de calagem e adubação para o cultivo da cebola são praticamente as mesmas para os métodos de plantio por semeadura direta, por mudas, por bulbinhos ou por bulbos de soqueira, variando apenas com o sistema de cultivo. O sistema de plantio direto ou cultivo mínimo, de uso relativamente recente no Brasil, vem utilizando as recomendações de adubação e calagem do sistema convencional sem nenhum prejuízo. Inclusive, têm sido constatadas produtividades elevadas em virtude de menores perdas dos fertilizantes aplicados. Por outro lado, o preparo e o manejo do solo são totalmente diferentes do sistema convencional. Já no sistema orgânico de plantio, mesmo quando o preparo do solo é feito de maneira similar ao convencional, por meio de aração e gradagem, a adubação e o manejo do sistema são vistos e praticados de maneira totalmente diversa. Em sistemas orgânicos de produção, deve ser evitado o manejo das adubações de forma similar ao sistema de agricultura convencional. Fazer adubações com a mesma quantidade e freqüência do sistema convencional pode não apresentar os resultados esperados, pois algumas fontes orgânicas apresentam liberação lenta de nutrientes para as plantas e estes nutrientes estão ligados a moléculas complexas, dependendo de processos bioquímicos para se tornarem disponíveis.

Sistema convencional

Preparo do solo e calagem

A cebola desenvolve-se melhor em solos profundos, ricos em matéria orgânica, com boa retenção de umidade, bem drenados e “leves”. Em geral, os solos de textura média, quando bem drenados, são os mais indicados por possuírem boas condições físicas e maior eficiência produtiva. Entretanto, é possível cultivar cebola em solos argilosos, como por exemplo os Latossolos Vermelhos provenientes de rochas basálticas, comuns no estado de São Paulo e no Sul do Brasil, desde que apresentem as características descritas acima. Solos muito arenosos apresentam o inconveniente da baixa retenção de umidade e possibilidade de lixiviação de adubos, que podem contaminar águas subterrâneas causando problemas ambientais. Solos muito argilosos e “pesados” prejudicam o desenvolvimento dos bulbos e podem causar deformações e baixa qualidade comercial.

Para o preparo do solo neste sistema, geralmente são feitas uma a duas arações e duas gradagens. Quando o semeio é realizado diretamente no campo, o solo deve estar obrigatoriamente bem destorroado e aplainado, de modo a obter-se uniformidade na distribuição das pequenas e irregulares sementes de cebola. No caso de transplante de mudas, o destorroamento não precisa ser tão intenso, de forma que, dependendo das características do solo, muitas vezes são suficientes apenas uma aração visando atingir a profundidade de pelo menos 20 cm seguida por uma gradagem. Para o plantio de bulbinhos ou soqueira seguem-se as mesmas recomendações de preparo do solo para o sistema de mudas.

Ainda sobre o plantio de mudas, imediatamente após a gradagem faz-se o levantamento dos canteiros. Entretanto, em solos bem drenados, sem problemas de compactação, pode-se prescindir desta operação fazendo o transplante das mudas no nível do solo.

A cebola é relativamente sensível à acidez dos solos, desenvolvendo-se melhor em condições de pH (em água) de 6,0 a 6,5 e de, no máximo, 5% de saturação por Al3+. Dessa forma, a calagem é fundamental para o cultivo da cebola nos solos brasileiros, em sua maioria ácidos e com teores elevados de alumínio trocável. A calagem deve ser calculada com base na análise de solo, utilizando-se de um dos critérios descritos a seguir:

Método da elevação da porcentagem de saturação por bases

t.ha-1 de calcário = (V2 - V1).T/PRNT, em que:

V2 = 70% (saturação por bases desejada);

V1 = saturação por bases atual (análise de solo) = [(Ca2++Mg2++K+).100]/T;

T = capacidade troca catiônica [Ca2++Mg2++K++(H + Al)] em cmolc.dm-3;

PRNT = poder relativo de neutralização total do calcário a ser aplicado.

Método da neutralização do Al3+ e fornecimento de Ca2++Mg2+

t.ha-1 de calcário = Y.[Al3+-(mt.t/100)]+[X-(Ca2++Mg2+)].100/PRNT, em que:

X = exigência em cálcio e magnésio pela cultura (para cebola X = 3,0);

mt = máxima saturação por alumínio tolerada pela cultura (para cebola mt = 5,0);

Y = fator que varia com a capacidade tampão de acidez do solo podendo ser definido de acordo com a textura. Para solos arenosos (0 a 15% de argila); textura média (16 a 35); argilosos (36 a 60); muito argilosos (61 a 100), usa-se valores de Y de 0,0 a 1,0; 1,0 a 2,0; 2,0 a 3,0 e de 3,0 a 4,0, respectivamente.

Método SMP

Este método, utilizado nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, baseia-se no índice SMP para a recomendação de calagem. Para o cultivo da cebola, uma vez determinado o índice SMP na análise de solo, obtém-se a quantidade de calcário a ser aplicada para elevar o pH do solo a 6,0 mediante o uso da Tabela 3.

O calcário deve ser distribuído uniformemente a lanço por toda a área a ser cultivada e incorporado ao solo por meio de gradagem, com antecedência em relação ao plantio, suficiente para que reaja com o solo, o que só ocorre na presença de umidade, levando em torno de 60 a 90 dias. Deve-se utilizar calcário com elevado PRNT (poder relativo de neutralização total), característica que se baseia na granulometria e no teor de neutralizantes, e com uma relação adequada entre cálcio e magnésio, conforme a disponibilidade destes nutrientes no solo. O calcário calcinado, de maior custo, pode ser interessante para casos em que se tenha urgência para o plantio, visto que esse reage em cerca de 15 dias. Para o estado de São Paulo é recomendado teor mínimo de 0,9 cmolc.dm-3 de magnésio no solo para o cultivo da cebola. Assim, no caso do uso de calcário com baixos teores de magnésio, deve-se suplementar com outra fonte, como o sulfato de magnésio em quantidade suficiente para atingir 0,9 cmolc.dm-3 deste nutriente e relação Ca:Mg de aproximadamente 3:1.

Adubação de plantio

A recomendação de adubação para a cebola deve ser feita com base nos resultados da análise de solo. Geralmente, utiliza-se a mesma recomendação de adubação para os quatro métodos de cultivo: semeadura direta, por mudas, por bulbinhos e por bulbos de soqueira. Para as regiões cebolicultoras do Brasil existem recomendações de adubação adequadas e calibradas às suas condições de solo e clima e que, portanto, apresentam

Tabela 3. Quantidade de calcário (PRNT 100%) com base no índice SMP, visando a atingir o pH 6,0 em água, para correção da acidez dos solos do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Índice

SMP

Calcário

t.ha-1

Índice

SMP

Calcário

t.ha-1

Índice

SMP

Calcário

t.ha-1

< 4,4

21,0

5,3

7,5

6,2

2,2

4,5

17,3

5,4

6,8

6,3

1,8

4,6

15,1

5,5

6,1

6,4

1,4

4,7

13,3

5,6

5,4

6,5

1,1

4,8

11,9

5,7

4,8

6,6

0,8

4,9

10,7

5,8

4,2

6,7

0,5

5,0

9,9

5,9

3,7

6,8

0,3

5,1

9,1

6,0

3,2

6,9

0,2

5,2

8,3

6,1

2,7

7,0

0,0

Fonte: COMISSÃO DE FERTILIDADE DO SOLO – RS/SC (1994).

algumas variações. Sendo assim, é aconselhável adotar as recomendações para o seu estado ou para aquele com condições edafoclimáticas mais próximas. Na região Sudeste, os estados de Minas Gerais e São Paulo têm recomendações de adubação próprias conforme as Tabelas 4 e 5.

As recomendações para os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina estão na Tabela 6. Convém salientar que apenas nestes estados faz-se a recomendação da adubação com nitrogênio (N) com base na análise de solos em função do teor de matéria orgânica. Em caso de cultivos sucessivos de cebola, recomenda-se aplicar as quantidades de fósforo (P) e potássio (K) referentes à reposição.

Para o estado de Pernambuco, as recomendações de adubação com N, P e K encontram-se na Tabela 7. Na Tabela 8 estão as quantidades de adubos recomendadas para o cultivo da cebola na região do Distrito Federal. Nesta região, predominam os latossolos sob vegetação de cerrado, de baixa fertilidade natural e com altíssima capacidade de adsorção de fosfatos, o que explica as elevadas doses de P necessárias ao cultivo da cebola, quando comparadas às demais regiões.

Adubação em cobertura

Independente do sistema, é recomendável realizar uma adubação em cobertura com N e K no período de 30 a 40 dias após o plantio, sendo sugerido aplicar, respectivamente, 70% e 50% do total destes nutrientes em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Em solos muito arenosos como os Neossolos Quartzarênicos, a adubação em

Tabela 4. Recomendação de adubação NPK para a cultura da cebola no estado de Minas Gerais.

Fósforo

Potássio

Nitrogênio

P no solo (Mehlich-1)

Dose P2O5

K no solo

Dose K2O1/

Dose N1/

mg.dm-3

(kg.ha-1)

(mg.dm-3)

(kg.ha-1)

(kg.ha-1)

Baixo

300

<>

180

120

Argiloso2/

Text. média

Arenoso

<>

<>

<>

Médio

220

51-90

120

120

Argiloso

Text. média

Arenoso

32 – 47

48 – 79

80 – 119

Bom

100

91-140

50

120

Argiloso

Text. média

Arenoso

48 – 72

80 – 120

120 – 180

Muito bom

50

> 140

50

120

Argiloso

Text. média

Arenoso

> 72

> 120

> 180

1 Aplicar 70% do K e N em cobertura aos 40 dias após o plantio (DAP).

2 Considera-se como argilosos, de textura média e arenosos aqueles solos com teores maiores que 35, de 15 a 35, e menores que 15% de argila, respectivamente.

Aplicar 40 t.ha-1 de esterco de curral curtido.

Fonte: Ribeiro et al. (1999).

Tabela 5. Recomendação de adubação NPK para a cultura da cebola em São Paulo.

Nitrogênio

Fósforo

Potássio

Dose N

(kg.ha-1)

P Resina

(mg.dm-3)

Dose P2O5

(kg.ha-1)

K no solo (mg.dm-3)

Dose K2O

(kg.ha-1)

Plantio

<>

300

<>

150

30

26-60

150

60 -119

120

> 60

90

> 120

60

Cobertura1/

Cobertura1/

30 -60

30-60

1 Nos sistemas de semeadura direta, mudas e soqueira realizar a adubação com N e K em cobertura parcelada em 2 vezes (50% de cada vez) aos 25 e 50 DAP. Para formação do bulbinho, aplicar no máximo 10 kg ha-1 de N em cobertura e para formação do bulbo aplicar de 10 a 20 kg ha-1 aos 5 dias e 20 a 40 kg ha-1 de N após 25 dias do plantio do bulbinho.

Aplicar 15 t.ha-1 de esterco de curral curtido ou 5 t ha-1 de esterco de galinha curtido e 30 a 50 kg.ha-1 de S.

Fonte: Raij et al. (1996).

Tabela 6. Recomendação de adubação NPK para a cultura da cebola nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Teor de P no solo (mg.dm-3)

Faixa de teores

de P no solo

Dose P2O5

(kg.ha-1)

K no solo

(mg.dm-3)

Dose K2O

(kg.ha-1)

Mat. orgânica

(mg.dm-3)

Dose N2/

(kg.ha-1)

A1/

B

C

D

E

< 1

<1,5

< 2

< 3

< 4

Limitante

250

< 20

210

1-2

1,6-3

2,1-4

3,1-6

4,1-8

Muito baixo

200

21-40

170

2,1-4

3,1-6

4,1-9

6,1-12

8,1-16

Baixo

160

41-60

130

< 25

95

4,1-6

6,1-9

9,1-14

12,1-18

16,1-24

Médio

120

61-80

90

26 – 50

75

6,1-8

9,1-12

14,1-18

18,1-24

24,1-30

Suficiente

80

81-120

60

---

---

> 8

> 12

> 18

> 24

> 30

Alto

< 50

> 120

< 60

> 50

< 55

Reposição3/

35

> 90

1 Refere-se às classes de solos em função do teor de argila sendo A = 56 a 100; B = 41 a 55; C =26 a 40; D = 11 a 25 e E = 0 a 10% de argila.

2 Aplicar 50 % da dose de N em cobertura aos 45 dias após o plantio.

3 Doses de reposição são utilizadas no caso de cultivos sucessivos.

Fonte: COMISSÃO DE FERTILIDADE DO SOLO – RS/SC (1994).

Tabela 7. Recomendação de adubação NPK para a cultura da cebola em Pernambuco.

Nitrogênio

Fósforo

Potássio

Dose N

(kg.ha-1)

P no solo (Mehlich-1)

(mg.dm-3)

Dose P2O5

(kg.ha-1)

K no solo

(mg.dm-3)

Dose K2O

(kg.ha-1)

Plantio

<>

180

<>

180

45

6 - 10

135

31 - 60

135

Cobertura1/

11 - 20

90

61 - 100

90

90

> 20

45

> 100

45

1 Realizar a adubação em cobertura aos 30 DAP. Em solos arenosos (<>

Fonte: Cavalcanti (1998).

Tabela 8. Recomendação de adubação NPK para a cultura da cebola no Distrito Federal.

Nitrogênio

Fósforo

Potássio

Dose N

(kg.ha-1)

P no solo (Mehlich-1)

(mg.dm-3)

Dose P2O5

(kg.ha-1)

K no solo

(mg.dm-3)

Dose K2O

(kg.ha-1)

Plantio

<>

600 - 700

<>

80 - 120

50

11 - 30

500 - 600

61 -120

40 - 80

Cobertura1/

31 - 60

300 - 400

121- 240

0 - 40

50

> 60

100 - 200

> 240

-

1 Cobertura com N aos 40 DAP. Aplicar 2 e 4 kg.ha-1 de Boro e Zinco no plantio, respectivamente.

FONTE: EMATER-DF (1987).

cobertura com N e K deve ser fracionada em duas (30 e 50 dias após o plantio - DAP) ou três vezes (15, 30 e 50 DAP) para maior aproveitamento dos adubos, conforme sugerido para o Estado de Pernambuco.

Adubação orgânica

Independente da região, a adubação orgânica é sempre recomendada. Entretanto, deve-se considerar a quantidade de N do adubo orgânico a fim de evitar desequilíbrios na cultura por excesso deste nutriente e problemas ambientais em decorrência da lixiviação de nitrato, presente em quantidades elevadas em alguns tipos de adubos orgânicos, especialmente no esterco de matrizes. A recomendação para o estado de Minas Gerais é de 40 t.ha-1 de esterco de curral curtido enquanto para São Paulo é de 15 t.ha-1 ou a terça parte de esterco de galinha, ou ainda 500 kg.ha-1 de torta de mamona. Para o estado de Pernambuco, são recomendados 30 m3.ha-1 de esterco de curral curtido ou de outro produto orgânico em quantidade equivalente, principalmente para o cultivo em solos arenosos. A aplicação deve ser feita com antecedência de pelo menos 15 dias da semeadura ou transplante das mudas. No sistema de bulbinhos, não devem ser utilizados adubos orgânicos com altos teores de nitrogênio, aplicando no máximo 10 t.ha-1 de esterco de curral curtido ou 3 t.ha-1 de esterco de galinha em solos pobres e com baixo teor de matéria orgânica.

Adubação com enxofre e micronutrientes

Para a cebola, o enxofre (S) tem função especial por ser constituinte dos compostos responsáveis pela pungência. Porém, devido à presença de S na composição do superfosfato simples e do sulfato de amônio, muitas vezes este nutriente é esquecido. Entretanto, por vezes, utilizam-se outras fontes de N e P que não contém S. Portanto, em situações de baixos teores de matéria orgânica no solo e/ou de utilização de adubos concentrados como uréia e superfosfato triplo ou de fórmulas que não contêm S, deve-se acrescentar de 30 a 50 kg.ha-1 de S juntamente com a adubação NPK, independente do sistema de plantio.

Quanto aos micronutrientes, apenas para o estado de São Paulo existem recomendações baseadas na análise de solo (Tabela 9). Nas demais regiões, recomenda-se em torno de 1 a 2 kg.ha-1 de boro e de 2 a 4 kg.ha-1 de zinco, sem considerar a análise de solo. Estes nutrientes devem ser aplicados no sulco de plantio antes do transplante das mudas ou incorporados ao solo antes do semeio. Em organossolos ou solos com elevados teores de matéria orgânica é bastante comum ocorrer deficiência de cobre, recomendando-se aplicar de 1 a 2 kg.ha-1 de cobre. Em áreas que receberam adubos orgânicos de boa qualidade por sucessivos anos, pode-se prescindir da aplicação de micronutrientes.

Tabela 9. Recomendação de adubação com os micronutrientes B, Zn e Cu para o plantio de cebola de acordo com a análise de solo para o estado de São Paulo.

B (mg.dm-3)

Zn (mg.dm-3)

Cu (mg.dm-3)

<>

0,21-0,6

>0,60

<>

0,6-1,2

>1,2

<>

0,3-1,0

>1,0

Dose B (kg.ha-1)

Dose Zn (kg.ha-1)

Dose Cu (kg.ha-1)

2

1

0

5

3

0

4

2

0

Fonte: Raij et al. (1996).

Sistemas de Plantio Direto

O plantio direto de cebola, por alguns também chamado de cultivo mínimo ou plantio na palha, surgiu em resposta ao agravamento contínuo dos processos erosivos, tendo por base o conhecimento adquirido em grãos, seguindo três princípios básicos: rotação de culturas, cobertura e revolvimento mínimo do solo. Este sistema vem sendo implementado pelos métodos de semeadura direta e transplante de mudas.

Antes de implantar sistemas de plantio direto em áreas sob sistema convencional, recomenda-se adequar o solo mediante a redução de possíveis problemas pré-existentes, tais como a correção da acidez, a eliminação de camadas subsuperficiais compactadas, pelo uso de subsolador ou escarificador, e a redução da população de plantas espontâneas problemáticas, pelo controle químico e/ou mecânico.

Como benefícios, tem se verificado a minimização dos processos erosivos, a redução na mecanização e no uso de água e energia, a diminuição da infestação por plantas espontâneas, a atenuação dos extremos de temperatura no solo, a melhoria das características físicas, químicas e biológicas do solo, entre outras. Entretanto, por se tratar de tecnologia dinâmica e inovadora, exige acompanhamento constante e adaptações locais para que se obtenha sucesso na sua adoção.

  • Preparo de solo

No plantio direto, o preparo de solo é localizado, restrito às linhas de plantio (no método de semeadura direta) ou aos sulcos de transplante (no método de transplante de mudas) sobre a cobertura morta da cultura antecessora, chamada de planta de cobertura.

O manejo da palhada das plantas de cobertura pode ser feito pela roçada ou acamamento sem a dessecação quando em sistemas orgânicos, enquanto que em sistemas convencionais, em que se utilizam herbicidas, é comum a aplicação de dessecantes como Paraquat e Gliphosate. A dessecação por herbicida pode ser associada à roçada ou à trituração (no caso de milho após a colheita mecânica) ou o acamamento pode ocorrer naturalmente após a morte das plantas de cobertura (a exemplo de milheto ou aveia-preta).

Para o transplante de mudas, a adubação pode ser feita de duas formas: a lanço, em área total, anteriormente ao sulcamento, com incorporação parcial dos fertilizantes pelo revolvimento localizado nos sulcos de plantio; simultaneamente ao sulcamento, pela adaptação de depósitos de adubo e mecanismos de distribuição nos sulcos.

Para a semeadura direta, a disposição de fertilizantes é feita nas linhas de plantio, simultaneamente ao semeio.

  • Calagem e adubação

O cultivo mínimo, de uso relativamente recente no Brasil, vem utilizando as recomendações de calagem e adubação do sistema convencional sem nenhum prejuízo; ao contrário, com elevadas produtividades em virtude de menores perdas dos fertilizantes aplicados.

Com relação à calagem, previamente à implantação do sistema de cultivo mínimo, deve-se efetuar a correção da acidez do solo, por meio da incorporação de corretivo em toda a sua camada arável, aproximadamente os 20 a 30 cm superficiais. Uma vez instalado o plantio direto, deve-se realizar análises de solo pelo menos uma vez por ano. Quando necessário, isto é, quando a V% estiver abaixo de 50%, deve-se efetuar a correção do solo, distribuindo-o uniformemente em cobertura. De modo geral, o processo de acidificação no plantio direto ocorre mais lentamente e de forma concentrada principalmente na camada de 0 a 5 cm de profundidade, devido à mineralização dos restos culturais na superfície e à utilização de adubos nitrogenados. A quantidade a aplicar dependerá dos resultados da análise de solo. Quando comparado a sistemas convencionais de plantio, é comum em sistemas de plantio direto a reaplicação de calcário mais freqüentemente, porém em menores doses.

Quanto à adubação, em geral utilizam-se as mesmas recomendações do sistema convencional, seja para o transplante de mudas quanto para o semeio diretamente sobre a palhada. As doses de adubos fosfatados e potássicos recomendadas para o sistema convencional têm mantido elevada a produtividade das culturas no cultivo mínimo.

Em sistemas agrícolas onde se adotou sistemas de plantio direto, com adubação restrita às linhas de plantio, em substituição a sistemas de plantio convencional que utilizam adubação a lanço em área total previamente ao encanteiramento, tem se observado redução na quantidade de adubo aplicado no plantio em torno de 30 a 50% sem prejuízo na produtividade.

Especificamente, quanto à adubação nitrogenada, a recomendação varia conforme a planta de cobertura utilizada para a formação da palhada. Se espécies leguminosas foram utilizadas, deve-se ajustar as recomendações do sistema convencional, considerando a quantidade de N incorporada ao sistema (Tabela 10), reduzindo ou, até mesmo, dispensando a adubação no plantio, desde que este seja efetuado até 15 a 20 dias após o manejo da palhada. Por outro lado, se foram utilizadas gramíneas para a formação de palhada, deve-se aumentar a dosagem recomendada em torno de 20 a 50% conforme o volume de palhada em cobertura no solo, pois em função da alta relação C/N na sua composição este material seqüestra N do sistema para se decompor.

Sistemas orgânicos de plantio

Preparo do solo e calagem

Neste sistema, à semelhança do sistema convencional, geralmente o preparo do solo consiste de calagem quando necessária, aração, gradagem e levantamento dos canteiros Tabela 10. Plantas de cobertura e as respectivas produções médias de massa verde, massa seca, N (nitrogênio) fixado e duração do ciclo até o florescimento.

Planta de cobertura

Massa verde

(t.ha-1)

Massa seca

(t.ha-1)

N

(kg.ha-1)

Ciclo até o

florescimento

Aveia-preta

30 - 60

3 - 6

-

70 - 130

Azevém

30 - 60

3 - 6

-

150 - 180

Calopogônio

20 - 30

4 - 5

64 - 450

180 - 210

Crotalaria juncea

50 - 70

15 - 20

150 - 165

90 - 120

Crotalaria spectabilis

20 - 30

4 - 6

60 - 120

90 - 100

Ervilhaca

20 - 30

4 - 6

120 - 180

120 - 150

Feijão-de-porco

20 - 40

3 - 6

50 - 190

90 - 100

Feijão guandu

20 - 40

5 - 9

40 - 280

150 - 180

Feijão guandu anão

20 - 30

4 - 7

100 - 170

90 - 120

Labe-labe

15 - 30

5 - 9

65 - 130

120 - 150

Milheto

40 - 50

8 - 10

-

60 - 90

Mucuna anã

10 - 20

2 - 4

50 - 100

90 - 120

Mucuna preta

40 - 50

7 - 8

170 - 210

150 - 180

Nabo forrageiro

25 - 50

2 - 5

-

60 - 90

Soja perene

25 - 40

4 - 10

40 - 450

210 - 240

Sorgo forrageiro

15 - 30

4 - 8

-

55 - 70

para o plantio de mudas. Como no sistema orgânico a quantidade de calcário é limitada a no máximo 2 t.ha-1, deve-se utilizar calcário dolomítico e, de preferência, três meses antes do plantio. As quantidades de calcário e adubos devem ser calculados com base na análise química do solo. Em solos de primeiro ano é bastante comum realizar fosfatagem utilizando fontes de fósforo permitidas para o cultivo orgânico que são os termofosfatos, fosfatos naturais e/ou fosfatos reativos.

É fundamental também a utilização de adubos verdes de leguminosas, em cultivo solteiro ou em consórcio com gramíneas. Para maior eficiência do sistema é desejável que as espécies de adubos verdes apresentem crescimento rápido, boa cobertura do solo e elevada produção de biomassa. Portanto, é necessário selecionar as espécies de adubos verdes mais adaptadas de acordo com as condições de solo, clima e época de plantio.

Adubação de plantio

A aplicação do adubo orgânico pode ser feita a lanço, distribuída em toda a área antes do encanteiramento, utilizando o equivalente a 10 t.ha-1 de composto orgânico em termos de massa seca. Como alternativa pode ser utilizada a mesma quantidade de composto de farelos ou de esterco de curral curtido, ou ainda a metade de esterco de aves. Além do adubo orgânico, uma vez constatado teores baixos de fósforo na análise de solo, deve-se aplicar de 100 a 200 g.m-2 de termofosfato no plantio.

O cálculo das dosagens de adubos orgânicos para o plantio pode ser feito também levando-se em consideração a análise do solo, a composição química do adubo e a exigência da cultura. Como exemplo, considere o plantio de um hectare de cebola em que pela análise de solo se recomende aplicar 120 kg de N, 180 kg de K2O e 300 kg de P2O5 e têm-se disponíveis os adubos orgânicos com suas respectivas composições químicas (% na matéria seca) e fatores de conversão (fc) apresentados na Tabela 11.

Esterco bovino necessário:

N = kg.ha-1 de N recomendada pela análise de solo x fc para N = 120 x 20 = 2.400 kg.ha-1 de esterco bovino que fornece também:

P = kg.ha-1 de esterco bovino: fc para P = 2.400/40 = 60 kg.ha-1;

K = kg.ha-1 de esterco bovino: fc para K = 2.400/20 = 120 kg.ha-1.

Para completar o K, vamos usar cinzas como adubo:

K = (kg.ha-1 de K recomendado - kg.ha-1 de K fornecido pelo esterco bovino) x fc para K = (180 - 120) x 10 = 600 kg.ha-1 de cinzas que fornece também:

P = kg.ha-1 de cinzas: fc para P = 600/40 = 15 kg.ha-1.

Para completar o P, vamos usar o fosfato natural:

P = (kg.ha-1 de P recomendado - kg.ha-1 de P fornecido pelo esterco bovino - kg.ha-1 de P fornecido pelas cinzas) x fc para P = (300 – 60 -15) x 3,3 = 742 kg.ha-1 de fosfato natural.

Portanto, para atender as recomendações indicadas pela análise de solo neste exemplo, para o plantio de um hectare de cebola devemos aplicar uma mistura contendo 2.400 kg de esterco bovino, 600 kg de cinzas e 742 kg de fosfato natural.

Estes cálculos levam em consideração apenas a constituição química dos adubos, sendo que os aspectos físicos e biológicos do solo, muito importantes nos sistemas de produção orgânicos, não são considerados. Portanto, as quantidades recomendadas no exemplo acima podem ser aumentadas considerando as características climáticas e de solo de cada região.

Adubação em cobertura

Trinta dias após o transplante, faz-se uma adubação em cobertura com 5 t.ha-1 de composto orgânico (massa seca) ou aplicação de 0,4 l.m-2 de extrato de composto (composto orgânico:água, relação em volume de 1:3) ou de biofertilizantes líquidos.

Tabela 11. Adubos orgânicos, composições químicas (% na matéria seca) e fatores de conversão (fc).

Fertilizante orgânico

Composição química

N

P

K

%MS

fc1/

%MS

fc1/

%MS

fc1/

Esterco Bovino

5

20

2,5

40

5

20

Fosfato Natural

-

-

30

3,3

-

-

Cinzas

-

-

2,5

40

10

10

1 fc = 100/%MS

Avaliação do estado nutricional

O diagnóstico do estado nutricional das plantas é realizado por meio da diagnose foliar (análise de tecidos vegetais) e diagnose visual (observação de sintomas de deficiência ou excesso). A análise química foliar é importante para o ajuste fino da adubação, visando a maximizar a produtividade e a aumentar a eficiência no uso dos fertilizantes.

Para a cebola, recomenda-se amostrar a folha mais alta por ocasião do meio do ciclo da cultura em número de 40 folhas por talhão homogêneo. A diagnose visual, por sua vez, é também útil para diagnosticar desequilíbrios nutricionais. Entretanto, quando os sintomas se manifestam, a produção já pode estar prejudicada. Portanto, em qualquer cultivo, o ideal é que não ocorram sintomas visuais de desequilíbrios e, se ocorrerem, que sejam detectados e corrigidos o mais rápido possível.

Os sintomas de desequilíbrios nutricionais mais comumente observados na cultura da cebola são os seguintes:

Nitrogênio - sua deficiência causa redução do crescimento das plantas e folhas com coloração verde claro, progredindo para o amarelo nas folhas mais velhas, podendo chegar a uma cor verde-amarelo na planta inteira em caso de deficiência prolongada. Ocorre também redução do tamanho dos bulbos. Convém lembrar que temperaturas baixas, excesso de água ou seca prolongada podem causar sintomas semelhantes.

O excesso de nitrogênio pode ocasionar diversos problemas tais como alongamento do ciclo, plantas com “pescoço grosso”, muito viçosas, com excesso de folhas e que em geral não produzem bulbos de boa qualidade. Além disso, aumenta a suscetibilidade a doenças foliares e diminui a conservação pós-colheita dos bulbos.

Potássio - sob deficiência deste nutriente, as folhas mais velhas tornam-se cloróticas e secas nas pontas; ocorre diminuição do tamanho dos bulbos. O potássio aumenta a tolerância a doenças e propicia melhor formação do bulbo e maior conservação pós-colheita, sendo essencial o balanço potássio/nitrogênio para o bom desenvolvimento e qualidade da cebola. Não se conhece sintomas visíveis de toxidez de K, entretanto seu excesso induz deficiências de magnésio e cálcio.

Fósforo - sua carência resulta em menor crescimento das plantas, com clorose das folhas mais velhas que se secam em seguida; as folhas mais jovens tornam-se de cor verde escura, finas e menores; ocorre também redução do tamanho dos bulbos. O excesso de P pode causar deficiências induzidas de micronutrientes, especialmente de zinco e cobre.

Cálcio - os sintomas de deficiência manifestam-se inicialmente nas folhas mais novas que tombam sem se quebrarem, mesmo estando aparentemente sadias. Após alguns dias, estas folhas começam a secar do ápice para a base, adquirindo coloração palha; posteriormente, são acometidas as folhas intermediárias e, por último, as mais velhas, que são igualmente afetadas em caso de deficiência prolongada de cálcio. Toxicidade deste nutriente ainda não foi relatada; entretanto, sabe-se que o excesso ocasiona desequilíbrios com outros nutrientes, especialmente o magnésio e o potássio.

Magnésio - sua deficiência ocasiona secamento da ponta das folhas mais velhas e redução do tamanho dos bulbos.

Enxofre - folhas mais novas tornam-se cloróticas e algumas vezes deformadas em condições de deficiência deste nutriente. O enxofre influencia o sabor e o aroma da cebola, de tal forma que existe relação direta entre o teor de enxofre do solo e a pungência do bulbo. Mesmo as cultivares de cebola suaves tornam-se mais pungentes com o aumento da disponibilidade de enxofre no solo. A adequada nutrição em enxofre é também importante para a maior conservação pós-colheita dos bulbos.

Micronutrientes - em condições normais, nos solos brasileiros apenas o boro e o zinco e, em alguns casos, o cobre têm se mostrado deficientes para a cultura da cebola. Ferro, manganês, molibdênio e cloro geralmente não representam problemas.

Boro - plantas deficientes apresentam crescimento reduzido, folhas retorcidas, espessas, quebradiças e com partes secas a partir do ápice; as escamas apresentam-se desidratadas e surgem necroses naquelas da região meristemática; aumenta a incidência de podridões durante o armazenamento dos bulbos diminuindo a conservação pós-colheita.

Zinco - a carência provoca redução no crescimento das plantas, estrias nas folhas, e algumas vezes, encurvamento das mesmas com clorose. Podem ocorrer ainda manchas cloróticas nas folhas mais novas e manchas irregulares amareladas nas folhas mais velhas.

Cobre - sob deficiência, as plantas apresentam-se fracas e sem firmeza e as folhas com clorose esbranquiçada, além de retorcidas e com necrose nas pontas.

PLANTIO DIRETO DA CEBOLA

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O plantio direto de cebola, por alguns também chamado de cultivo mínimo ou plantio na palha, surgiu em resposta ao agravamento contínuo dos processos erosivos, tendo por base o conhecimento adquirido em grãos, seguindo três princípios básicos: rotação de culturas, cobertura e revolvimento mínimo do solo. Este sistema vem sendo implementado pelos métodos de semeadura direta e transplante de mudas.

Antes de implantar sistemas de plantio direto em áreas sob sistema convencional, recomenda-se adequar o solo mediante a redução de possíveis problemas pré-existentes, tais como a correção da acidez, a eliminação de camadas subsuperficiais compactadas, pelo uso de subsolador ou escarificador, e a redução da população de plantas espontâneas problemáticas, pelo controle químico e/ou mecânico.

Como benefícios, tem se verificado a minimização dos processos erosivos, a redução na mecanização e no uso de água e energia, a diminuição da infestação por plantas espontâneas, a atenuação dos extremos de temperatura no solo, a melhoria das características físicas, químicas e biológicas do solo, entre outras. Entretanto, por se tratar de tecnologia dinâmica e inovadora, exige acompanhamento constante e adaptações locais para que se obtenha sucesso na sua adoção.

Preparo de solo

No plantio direto, o preparo de solo é localizado, restrito às linhas de plantio (no método de semeadura direta) ou aos sulcos de transplante (no método de transplante de mudas) sobre a cobertura morta da cultura antecessora, chamada de planta de cobertura.

O manejo da palhada das plantas de cobertura pode ser feito pela roçada ou acamamento sem a dessecação quando em sistemas orgânicos, enquanto que em sistemas convencionais, em que se utilizam herbicidas, é comum a aplicação de dessecantes como Paraquat e Gliphosate. A dessecação por herbicida pode ser associada à roçada ou à trituração (no caso de milho após a colheita mecânica) ou o acamamento pode ocorrer naturalmente após a morte das plantas de cobertura (a exemplo de milheto ou aveia-preta).

Para o transplante de mudas, a adubação pode ser feita de duas formas: a lanço, em área total, anteriormente ao sulcamento, com incorporação parcial dos fertilizantes pelo revolvimento localizado nos sulcos de plantio; simultaneamente ao sulcamento, pela adaptação de depósitos de adubo e mecanismos de distribuição nos sulcos.

Para a semeadura direta, a disposição de fertilizantes é feita nas linhas de plantio, simultaneamente ao semeio.

Calagem e adubação

O cultivo mínimo, de uso relativamente recente no Brasil, vem utilizando as recomendações de calagem e adubação do sistema convencional sem nenhum prejuízo; ao contrário, com elevadas produtividades em virtude de menores perdas dos fertilizantes aplicados.

Com relação à calagem, previamente à implantação do sistema de cultivo mínimo, deve-se efetuar a correção da acidez do solo, por meio da incorporação de corretivo em toda a sua camada arável, aproximadamente os 20 a 30 cm superficiais. Uma vez instalado o plantio direto, deve-se realizar análises de solo pelo menos uma vez por ano. Quando necessário, isto é, quando a V% estiver abaixo de 50%, deve-se efetuar a correção do solo, distribuindo-o uniformemente em cobertura. De modo geral, o processo de acidificação no plantio direto ocorre mais lentamente e de forma concentrada principalmente na camada de 0 a 5 cm de profundidade, devido à mineralização dos restos culturais na superfície e à utilização de adubos nitrogenados. A quantidade a aplicar dependerá dos resultados da análise de solo. Quando comparado a sistemas convencionais de plantio, é comum em sistemas de plantio direto a reaplicação de calcário mais freqüentemente, porém em menores doses.

Quanto à adubação, em geral utilizam-se as mesmas recomendações do sistema convencional, seja para o transplante de mudas quanto para o semeio diretamente sobre a palhada. As doses de adubos fosfatados e potássicos recomendadas para o sistema convencional têm mantido elevada a produtividade das culturas no cultivo mínimo.

Em sistemas agrícolas onde se adotou sistemas de plantio direto, com adubação restrita às linhas de plantio, em substituição a sistemas de plantio convencional que utilizam adubação a lanço em área total previamente ao encanteiramento, tem se observado redução na quantidade de adubo aplicado no plantio em torno de 30 a 50% sem prejuízo na produtividade.

Especificamente, quanto à adubação nitrogenada, a recomendação varia conforme a planta de cobertura utilizada para a formação da palhada. Se espécies leguminosas foram utilizadas, deve-se ajustar as recomendações do sistema convencional, considerando a quantidade de N incorporada ao sistema (Tabela 10), reduzindo ou, até mesmo, dispensando a adubação no plantio, desde que este seja efetuado até 15 a 20 dias após o manejo da palhada. Por outro lado, se foram utilizadas gramíneas para a formação de palhada, deve-se aumentar a dosagem recomendada em torno de 20 a 50% conforme o volume de palhada em cobertura no solo, pois em função da alta relação C/N na sua composição este material seqüestra N do sistema para se decompor.

Adubação de plantio 

A aplicação do adubo orgânico pode ser feita a lanço, distribuída em toda a área antes do encanteiramento, utilizando o equivalente a 10 t.ha-1 de composto orgânico em termos de massa seca. Como alternativa pode ser utilizada a mesma quantidade de composto de farelos ou de esterco de curral curtido, ou ainda a metade de esterco de aves. Além do adubo orgânico, uma vez constatado teores baixos de fósforo na análise de solo, deve-se aplicar de 100 a 200 g.m-2 de termofosfato no plantio.

O cálculo das dosagens de adubos orgânicos para o plantio pode ser feito também levando-se em consideração a análise do solo, a composição química do adubo e a exigência da cultura. Como exemplo, considere o plantio de um hectare de cebola em que pela análise de solo se recomende aplicar 120 kg de N, 180 kg de K2O e 300 kg de P2O5 e têm-se disponíveis os adubos orgânicos com suas respectivas composições químicas (% na matéria seca) e fatores de conversão (fc) apresentados na Tabela 11.

Esterco bovino necessário:

N = kg.ha-1 de N recomendada pela análise de solo x fc para N = 120 x 20 = 2.400 kg.ha-1 de esterco bovino que fornece também:

P = kg.ha-1 de esterco bovino: fc para P = 2.400/40 = 60 kg.ha-1;

K = kg.ha-1 de esterco bovino: fc para K = 2.400/20 = 120 kg.ha-1.

Para completar o K, vamos usar cinzas como adubo:

K = (kg.ha-1 de K recomendado - kg.ha-1 de K fornecido pelo esterco bovino) x fc para K = (180 - 120) x 10 = 600 kg.ha-1 de cinzas que fornece também:

P = kg.ha-1 de cinzas: fc para P = 600/40 = 15 kg.ha-1.

Para completar o P, vamos usar o fosfato natural:

P = (kg.ha-1 de P recomendado - kg.ha-1 de P fornecido pelo esterco bovino - kg.ha-1 de P fornecido pelas cinzas) x fc para P = (300 – 60 -15) x 3,3 = 742 kg.ha-1 de fosfato natural.

Portanto, para atender as recomendações indicadas pela análise de solo neste exemplo, para o plantio de um hectare de cebola devemos aplicar uma mistura contendo 2.400 kg de esterco bovino, 600 kg de cinzas e 742 kg de fosfato natural.

Estes cálculos levam em consideração apenas a constituição química dos adubos, sendo que os aspectos físicos e biológicos do solo, muito importantes nos sistemas de produção orgânicos, não são considerados. Portanto, as quantidades recomendadas no exemplo acima podem ser aumentadas considerando as características climáticas e de solo de cada região.

Adubação em cobertura

Trinta dias após o transplante, faz-se uma adubação em cobertura com 5 t.ha-1 de composto orgânico (massa seca) ou aplicação de 0,4 l.m-2 de extrato de composto (composto orgânico: água, relação em volume de 1:3) ou de biofertilizantes líquidos.

CULTIVARES DE CEBOLA



As formas mais importantes de classificar as cebolas são quanto as exigências fotoperiódicas, o padrão genético, e a preferência e forma de consumo.

Cultivares são melhor adaptadas a locais e épocas nas quais ocorrem o mínimo de fotoperíodo e temperatura exigidos para a bulbificação. As cultivares de ciclo precoce, médio e tardio, são plantadas nos estados da região Sul. Nas regiões Sudeste e Centro Oeste são plantadas cebolas "super precoces", precoces e médias. Nos demais estados brasileiros plantam-se cultivares "super precoces" e precoces. Devido a interação com temperatura, tamanho e idade da planta, densidade de plantio, fertilização, irrigação, etc., a bulbificação e produção de cebola podem variar consideravelmente em uma mesma faixa de fotoperíodos.

Outra forma de agrupamento das cultivares de cebola, é pelo padrão genético, determinado pelo grau de homogeneidade adquirido pela população por meio do melhoramento genético. No primeiro grupo estão as populações geneticamente heterogêneas como 'Baia Periforme', 'Pêra' e 'Crioula', mantidas por produtores e em coleções de germoplasma. Constituem a base das cultivares brasileiras, por apresentarem tolerância a doenças, boa conservação pós-colheita e ampla variação em formato, tamanho, cor, número e espessura de películas de bulbos. Cebolas do grupo 'Crioula' são adaptadas principalmente à região Sul. Seus bulbos possuem conservação pós-colheita muito boa, película de cor marrom escura e ampla aceitação pelo mercado.

O segundo grupo é composto por seleções estabilizadas e bem adaptadas que são comercializadas como cultivares de polinização livre, ao qual pertencem todas as cultivares brasileiras e as do tipo Grano, importadas. As cultivares nacionais possuem geralmente bulbos globulares a globulares alongados, película amarela, marrom, vermelha ou arroxeada e de espessura variável, conteúdo alto de matéria seca, sabor, odor e pungência acentuados, folhas cerosas e bom nível de resistência a doenças foliares. A cultivar Conquista, disponibilizada pela Embrapa Hortaliças em 1988 é do tipo 'Baia Periforme' e possui resistência a Peronospora destructor (míldio) no escapo floral, sendo importante na fase de produção de sementes. Algumas cultivares do tipo 'Baia Periforme' como Baia Periforme, Baia Periforme Super Precoce, Baia Precoce Piracicaba e Pira Ouro são adaptadas ao médodo de produção por bulbinhos.

As cultivares importadas caracterizam-se pelos bulbos globulares achatados, película amarela clara e fina, escamas espessas, conteúdo baixo de matéria seca, sabor, odor e pungência mais suaves e pouca cerosidade na folha. Possuem adaptação ampla quanto ao comprimento de dia, são bastante produtivas e resistentes ao florescimento, mas muito suscetíveis a doenças foliares. As cultivares de polinização livre mantêm ampla variabilidade genética e juntamente com as populações geneticamente heterogêneas formam o material básico para seleção e melhoramento genético.

O terceiro grupo é composto pelas cultivares híbridas de dias curtos, ao qual pertencem as do tipo 'Granex' desenvolvidas nos Estados Unidos. São populares no Brasil 'Granex 33', 'Granex 429', 'Granex Ouro', 'Mercedes' e 'Superex'. Cultivares 'Granex' possuem bulbos achatados ou redondo achatados, precocidade de maturação, resistência ao pendoamento, sabor, odor e pungência suaves e resistência a raiz rosada (Pyrenochaeta terrestris). São, no entanto, mais suscetíveis a mancha púrpura (Alternaria porri), e ao mal de sete voltas (Colletotrichum gloeosporioides) que as cultivares nacionais, e a exemplo das cultivares 'Grano', são facilmente danificadas pelo manuseio demasiado e possuem vida pós-colheita curta, mesmo sob condições de frio. Apesar do aumento crescente da área plantada com cultivares híbridas de cebola no Brasil, ainda não se tem híbridos nacionais disponíveis. As cultivares híbridas, devido aos efeitos benéficos da heterose e ao alto padrão genético (maior uniformidade de bulbificação, maior capacidade de adaptação por tolerar maior densidade de plantio, e pela maior produtividade em relação as cultivares de polinização livre), têm despertado o interesse de cebolicultores médios e de grande porte.

O tipo de cebola preferido varia com o mercado e a preferência do consumidor, e constituem-se em outra forma importante de classificação de cultivares. No Brasil, há preferência por bulbos de tamanho médio, pungentes, globulares, firmes, de película externa de cor amarela e marrom escura, e escamas internas de cor branca. A demanda por bulbos avermelhados (arroxeados) é pequena e concentrada no Nordeste Brasileiro e na região de Belo Horizonte, em Minas Gerais. O mercado ainda é limitado para as cebolas de sabor suave e doce, preferidas para saladas. A cv. São Paulo, disponibilizada pela Embrapa Hortaliças em 1991, é uma cebola do grupo das claras precoces suaves.

Escolha da cultivar

Cultivares de cebola são muito variáveis quanto a produtividade e também variam amplamente quanto ao ciclo. Na escolha da cultivar de cebola devem ser considerados, entre outros aspectos, a latitude e altitude do local de plantio, a estação de crescimento e as exigências do mercado a ser atendido. Plantios em locais e/ou épocas e/ou de tipos não adequados podem resultar em produtividade e qualidade baixa, e dificuldade de comercialização do produto. Para o cultivo de cebola em regiões sujeitas a temperaturas bastante baixas no inverno devem ser escolhidas cultivares menos sensíveis ao florescimento prematuro e/ou evitar o plantio muito cedo.

A maioria das cultivares disponíveis são para semeio de final de verão a meados de outono e colheita de outubro a novembro, época considerada ideal para o cultivo de hortaliças em condições de campo no Brasil. O cultivo de verão (semeio em final de primavera no início de verão) tem como principal inconveniente a bulbificação sob altas temperaturas, chuvas excessivas e maior incidência de doenças, pragas e plantas daninhas. A cv. Alfa Tropical, disponibilizada pela Embrapa Hortaliças e Epamig em 1998, é uma cebola para plantio no verão das regiões Sudeste e Centro Oeste. Outras cultivares para plantio nessa época nas regiões Sudeste e Centro-Oeste são as cultivares da série IPA como IPA-6, IPA 9 e IPA 11, que por serem desenvolvidas para a região Nordeste do Brasil, sofrem menor efeito das altas temperaturas e possuem níveis moderados de resistência ao mal de sete voltas, à mancha púrpura, e ao tripes (Thrips tabaci).

Para atender a indústria de processamento, a Embrapa Hortaliças disponibilizou em 1998 a cv. Beta Cristal, com elevado teor de sólidos solúveis, de escamas brancas e bastante pungentes. Além de adequada para desidratação e produção de pasta, pode ser usada para a indústria de conserva (produção de picles).

Na Tabela 12 estão descritas as cultivares de polinização livre (OP) e híbridas (H) de cebola nacionais e importadas atualmente disponíveis para o plantio no Brasil, com algumas de suas características mais importantes.


Tabela 12. Cultivares de polinização livre (OP) e híbridas (H) de cebola disponíveis para plantio no Brasil. Embrapa Hortaliças, 2004.

Cultivar

Empresa1/

Tipo

Ciclo maturação/

dias

Época plantio/região

Bulbo

Formato

Cor

película

Cor

escamas

Cons. pós-colheita

Pungência

Alfa Tropical/OP

Embrapa, Hortec, Feltrin

DC

Super precoce/120-150

Ago-nov/NE

Nov-jan/SE, CO, NE

Globular alongado

Amarela

Branca

Boa

Alta

Aurora/OP

Embrapa, Hortec, Feltrin

DI

Precoce/150-170

Abr-jun /Sul, SE

Globular alongado

Amarela

Branca

Boa

Alta

Baia Dura/H

SVS

DC

Precoce/160-180

Mar-jun/SE

Globular

Amarela

Branca

Boa

Alta

Baia Perif. Super Precoce/OP

Isla

DC

Precoce/135-165

Mar-jul/SE

Globular alongado

Amarela

Branca

Boa

Alta

Baia Periforme/OP

Hortec, Feltrin, Isla

DC

Precoce/160-180

Mar-jun/S, SE

Globular alongado

Amarela

Branca

Boa

Alta

Baia Precoce/OP

Hortec

DC

Precoce/150-180

Abr-jun/S, SE

Globular alongado

Amarela

Branca

Boa

Alta

Bella Crioula/OP

Sakata

DI

Médio/180-210

Mar-mai/S

Globular

Amarela escura

Branca

Boa

Alta

Beta Cristal/OP2/

Embrapa

DC

Precoce/150-180

Mar-mai/SE, CO2/

Achatado

Branca

Branca

Boa

Alta

Bola Precoce – Empasc 352/OP

SVS, Epagri, Feltrin, Isla

DI

Médio/170-190

Mar-mai/S

Globular

Amarela escura

Branca

Boa

Alta

BR 19/OP

Topseed

DC

Precoce/145-165

Mai-jun/SE

Globular arredondado

Amarela escura

Branca

Média - boa

Alta

BR 23/OP

Topseed

DC

Precoce/155-165

Mai-jun/SE

Globular

Amarela

Branca

Média -Boa

Alta

BR 25/OP

Topseed

DC

Precoce/165

Mai-jun/SE

Globular arredondado

Amarela escura

Branca

Média -Boa

Alta

BR 27/OP

Topseed

DC

Super precoce/

135-145

Abr-jun/S

Globular

Amarela escura

Branca

Boa

Alta

BR 29/OP

Topseed

DC

Médio/185-195

Mai-jun/S

Globular arredondado

Amarela escura

Branca

Boa

Alta

BRS Cascata/OP

Embrapa

DI

Médio/180-210

Abr-mai/S

Pião

Marron escura

Branca

Muito boa

Alta

Cadillac/H

SVS

DC

Super precoce/

100-120

Jan-abr/SE, CO, NE

Globular pião

Amarela clara

Branca

Média

Baixa

Composto IPA-6/OP

IPA, Sakata, Isla

DC

Super precoce/

130-160

Jan-jun/NE

Globular alongado

Amarela

Branca

Boa

Alta

Conquista/OP

Embrapa

DC

Precoce/160-180

Mar-mai/SE

Globular

Amarela

Branca

Boa

Alta

Crioula Alto Vale – Epagri 362/OP

Epagri, Hortec, Feltrin

DI

Tardio/190-240

Abr-jun/Sul

Globular

Marrom

Branca

Muito boa

Alta

Crioula Mercosul/OP

Hortec

DI

Tardio/180-240

Abr-jun/S

Globular

Marrom

Branca

Boa

Alta

Continuação Tabela 12.

Cultivar

Empresa1/

Tipo

Ciclo maturação/

dias

Época plantio/região

Bulbo

Formato

Cor

película

Cor

escamas

Cons. pós-colheita

Pungência

Crioula/OP

Hortec, Isla

DI

Tardio/180-220

Abr-jun/S

Globular

Marrom

Branca

Muito boa

Alta

Diamante/OP

Fepagro, Hortec

DI

Médio/160-200

Mar-jun/S

Globular alongado

Branca

Branca

Boa

Alta

Duquesa/H

SVS

DC

Super precoce/

140-150

Mar-jun/SE

Globular

Amarela clara

Branca

Média

Baixa

Franciscana - IPA 10/OP

IPA

DC

Super precoce/

120-140

Abr-set/NE

Globular achatado

Vermelha

púrpura

Vermelha púrpura

Boa

Alta

Gran Valley/H

SVS

DC

Super precoce/

130-150

Mar-jun/SE, CO, NE

Globular redondo

Amarela

Branca

Média

Baixa

Granex 429 (H)

SVS

DC

Super precoce/

110-160

Jan-abr/SE, CO

Jan-jul/NE

Globular

Pião

Amarela clara

Branca

Média

Baixa

Granex 90/H

Sakata

DC

Super precoce/

110-130

Jan-jul/SE, CO, NE

Globular pião

Amarela clara

Branca

Média

Baixa

Granex Ouro/H

Topseed

DC

Super precoce/

120-140

Fev-mai/SE

Globular

Amarela clara

Branca

Média

Baixa

Jubileu/OP

Fepagro, Feltrin

DI

Tardio/170-230

Abr-jun/S

Globular alongado

Amarela

Branca

Boa

Alta

Juporanga – Empasc 355/OP

Epagri

DI

Tardio/220-250

Mai-jun/Sul

Globular alongado

Amarela

Branca

Boa

Alta

Madrugada/OP

Fepagro, Hortec, Feltrin

DI

Médio/160-200

Abr-jun/S

Globular alongado

Amarela

Branca

Boa

Alta

Mercedes/H

SVS

DC

Super precoce/

135-150

Jan-jul/

SE, CO, NE

Globular

Amarela clara

Branca

Média

Suave

Montana/OP

SVS

DI

Médio/175-210

Mar-mai/S

Globular redondo

Amarela escura

Branca

Boa

Forte

Morena F1/H

Topseed

DC

Precoce/140-150

Abr-jul/S

Mai-jun/SE, CO

Globular

Marrom

Branca

Boa

Forte

Optima F1/H

Topseed

DC

Super precoce/

110-140

Mar-Mai/SE, CO

Globular

Amarela escura

Branca

Boa

Baixa

Pêra - IPA 4/OP

IPA

DC

Super precoce/

130-150

Ago-dez/NE

Globular alongado

Amarela

Branca

Boa

Alta

Pêra Norte 14 Bojuda do Rio Grande/OP

Feltrin

DI

Tardia/180-230

Mai-jun/S

Globular com base achatada

Amarela

Branca

Média-boa

Alta

Perfecta F1/H

Topseed

DC

Super precoce/

130-145

Mar-mai/SE, CO

Globular

Amarela

escura

Branca

Boa

Média

Petroline/OP

Fepagro, Hortec

DI

Médio/160-200

Abr-jun/S

Globular alongado

Amarela

Branca

Boa

Alta

Piraouro/OP

Topseed

DC

Precoce/140-160

Abr-mai/SE

Globular

Amarela

Branca

Boa

Alta

Primavera/OP

Embrapa, Hortec, Feltrin

DI

Precoce/150-170

Abr-jun/S, SE

Globular

Amarela

Branca

Boa

Alta

Continuação Tabela 12.

Cultivar

Empresa1/

Tipo

Ciclo maturação/

dias

Época plantio/região

Bulbo

Formato

Cor

película

Cor

escamas

Cons. pós-colheita

Pungência

Princesa/H

SVS

DC

Super precoce/

130-150

Mar-mai/SE, CO

Globular redondo

Amarela clara

Branca

Média

Baixa

Red Creole/OP

Feltrin, Isla

DC

Médio/150-180

Mar-jul/SE, CO, NE

Globular achatado

Vermelha

púrpura

Vermelha

escura

Média-boa

Alta

Régia/OP

SVS

DC

Precoce/145-160